Mensagens

Um rabisco, um traço

Ao olharmos para uma parede branca, comparamo-la a uma folha de papel vazia. Podemos fechar os olhos num natural movimento. Mas, quando os abrimos novamente, a realidade não se altera. A folha é a folha. A parede continua a ser a parede. O sentimento nu e cru, quando a folha e a parede estão eternamente brancas, é a força de nos isolarmos num canto. Queremos então que, nem o piar do pássaro incomode a nossa solidão. A revolta gera-se, como um barco a naufragar. Aí apercebemo-nos que precisamos de quem nos ajude a erguer a cabeça, a voltarmos a viver, a preencher o espaço branco do suporte da nossa vida. Numa primeira reflexão tentamos compreender porque é que vivemos na solidão. Seguidamente questionamos a diferença entre a folha de papel vazia e a parede totalmente branca. Chegamos logo à conclusão que, a folha de papel limpa, sem qualquer rascunho, sem qualquer rabisco, sem qualquer linha traçada e a parede totalmente branca, sem uma falha de cor, sem um risco não-cuidado, é c...

Caminho

Suspiro profundo.   Finalmente- pensou Julieta. Não era uma nova vida, mas sim um renascer de vida. Depois de mais de doze meses a batalhar, a travar dores, a conter choro, a lutar contra o abandono, Julieta está sem batalhas para ganhar e sem lutas a travar. Sentia-se finalmente livre de pensamentos do passado. Fim do mês de Setembro. Julieta viu Lourenço. De súbito tocou na sua pele, que cobria o seu coração. Sentiu que não tinha parado. Ele, desta vez, não a tinha atraiçoado. Lourenço foi ter com ela. Sorriram. A felicidade reinava o momento. Julieta olhou-o. Todos os pontos possíveis de se verem. Estava igual. Não tinha mudado nada, não tinha crescido um centímetro. Ela sabia exatamente como ele era. Desde o comprimento do cabelo até ao número de calçado. Lourenço falou, falou... estava tagarela. Julieta mantia-se silenciosa. Apenas queria escutar a pronúncia do amigo , medir a largura do seu sorriso, os gestos que fazia. Fechou os olhos. Olhou para o Sol que lhe pass...

Noite

Um feixe de luz iluminou o bungalow. Abri os olhos, ainda cansados da noite anterior. Voltei a cerrá-los involuntariamente. A luz era um obstáculo. Reabri os olhos. Senti que estavam a ser bombardeados com flechas esmagadoras. Voltei a fechar num movimento resumido. Movi-me no sofá quente. Pus a mão na testa. Senti suor a escorrer-me pelo corpo. Senti alguém a meu lado. Por momentos senti calafrios pelo corpo. Pequenos formigueiros a surgirem-me. O medo a assustar-me redondamente. Afastei esses pensamentos e essas sensações. Ergui o braço e tentei tapar a luz com a mão, para conseguir abrir os olhos e ver quem me estava a abraçar. Senti o seu braço quente. Olhei, reparei que era ELE. Senti-me segura. João estava lá. Perdi o medo. Sorri. Beijei-lhe a testa suavemente para não o acordar. Fechei os olhos. Senti-o a mexer-se. Senti que ele acordara, não era minha intenção. Percebi que estava a ser olhada por ele. Não quis reabrir os olhos. Gostei daquela sensação. Senti o meu íntimo a pest...

Início

Joanne vivia afastada da cidade. Tinha uma casa grande, talvez enorme. Talvez das maiores da cidade. Para ela tem o jardim mais relaxante da vida dela. Quando se entra sente-se o cheio a flores, o cheiro a amores-perfeitos. O cheiro à resina dos pinheiros. O cheiro e o sabor da brisa que lhe corre pela cara e que lhe faz sobressair as cores de Outono dos seus olhos. Olhos radiantes. Uma brisa que lhe corre tranquila na cara e que lhe levanta, cuidadosamente, os cabelos fazendo-os bailar «ao sabor do vento». A sua habitação é fenomenal pois vê duas serras. Duas serras que têm a cor branca no Inverno e a cor verde, amarela e vermelha no Verão e na maravilhosa Primavera. Joanne vive rodeada de amigos, de movimentos, de olhares e de tristeza. Joanne é extremamente sociável, não há dúvida para isso. Mas, Joanne acha que não é suficientemente feliz. Joanne tem amigos, muito amigos, carradas de amigos. Mas, os verdadeiros amigos Joanne tem aqueles que lhe chegam. Para ela, não há necessidade ...

O papel escrito com tinta

Ouviu-se um suspirar assustado de alguém. Sentiu-se o suor de uma personagem, a fazer sombra na parede de um quarto sólido. O suor percorria-lhe o corpo inteiro. Viu-se uma pinga a pisar bruscamente o chão, sem dó nem piedade. Pequenos formigueiros apareciam-lhe sem razão possível. Era nervosismo. Com certeza que era o medonho e apavorante nervosismo que se fazia sentir. Joanne estava deitada na sua cama. Apesar do seu quarto estar quente, Joanne estava com arrepios frequentes. Junto ao nervosismo vinham as lágrimas desalmadas. Lágrimas que secavam com o calor do quarto, que congelavam com o pensamento e sentimento do seu coração. Joanne, rapariga divertida, inteligente e com uma alegria notável, estava claramente triste e desolada. Joanne sempre acreditara que o amor estava acima de tudo. Mesmo que acontecesse uma tragédia, o amor valia mais que grandes amigos. Essa opinião modificara-se por completo num abrir e fechar de olhos. Num ápice, Joanne apercebera-se que o amor se interliga...

Joanne & João

O silêncio estava ausente. Tudo se perdera num abrir e fechar de olhos. A luz que lhe iluminava o caminho fechara-se, apagara-se. Ouviu-se um tiro no escuro. Não, não fora um tiro. Fora algo que não se distinguira bem do barulho que se fazia sentir. Talvez um “espirrar” de alguém. Alguém único que assistia à cena de olhos abertos. Alguém que vira a cena toda. Toda, mas mesmo toda. Joanne e João. Eram os únicos numa rua com a inexistência de luz e existência de barulho. Talvez fosse a rua mais deserta daquela cidade. Porque, ao contrário daquela rua, em todas as outras havia pubs, discotecas e bares. Joanne tossiu. Joanne deitou lágrimas de tristeza. João não entendia porquê. Tentou compreender mas não entendeu. Passaram-se mais alguns minutos inacabados e João continuava a não entender. Joanne acelerava a sua rotina de lágrimas e, desta vez, não conseguia por um fim àquela tristeza toda. Não conseguiram dizer nem uma palavra. Nem um “Não!”, nem um “Sim!”, nem um “Diz!”. Palavr...

Mundo heterogéneo. Por quê?

Carinho – acto ou efeito de acarinhar; mimo; afago; carícia. Ternura – qualidade do que é terno; meiguice. . Estas duas palavras simbolizam algo para a vida de uma pessoa. Quem não gosta de receber atenção? Quem não gosta de ter mimos constantes e diários? Quem não gosta de ter alguém, ou ter muitas pessoas que dessem carinho e ternura? Acho que ninguém. Acho isto porque não entrevistei todas as pessoas no Mundo. Acho isto porque não conheço todos os feitios do Mundo. Acho isto porque não conheço toda a população a viver no mesmo planeta que eu! . Violência – acção violenta; força; tirania; coacção. Solidão – estado do que está só; solitário; isolado; único. . Podia estar aqui a descrever muito bem estas palavras. Mas poucas frases, poucas palavras chegam, pouca atenção chega. Estar só é estar isolado de todos os Humanos que vivem na Terra. Aquele indivíduo que prefere viver sem carinho que prefere viver na companhia das suas vestes é um ser humano anormal. No sentido de que a...